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Cultura Dia do Indígena

Movimento luta por direitos e fortalecimento da cultura indígena na Zona da Mata

O povo indígena Puri é originário do sudeste brasileiro; o termo Puri no idioma Coroado significa ousado em referência ao modo de surpreender seus rivais quando atacavam

19/04/2022 às 16h50 Atualizada em 26/04/2022 às 11h13
Por: Davi Carlos Acácio
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Foto: Divulgação/ Helenice Puri
Foto: Divulgação/ Helenice Puri

Na luta pelo fortalecimento cultural e reconhecimento da identidade, o movimento Retomada Puri realiza ações na Zona da Mata mineira em prol dos indígenas em contexto urbano que habitam a região. O grupo é composto por membros em núcleos familiares, presentes nos municípios de Divinésia, Ervália, Juiz de Fora, Visconde do Rio Branco e Viçosa, além de Araponga e as cidades capixabas de Cariacica e Jerônimo.

O povo indígena Puri é originário do sudeste brasileiro. “O termo Puri no idioma Coroado significa ousado em referência ao modo de surpreender seus rivais quando atacavam. Os Puri e Coroado denominavam-se mutuamente da mesma forma, sendo o termo Coroado uma nomeação feita pelos não-indígenas”, escrevem Txâma Xambé Puri, Tutushamum Puri e Xindêda Puri, em artigo intitulado Kwaytikindo: retomada linguística Puri, publicado no ano de 2020, na Revista Brasileira de Línguas Indígenas. 

Presentes em locais expropriados durante a colonização, sobretudo na exploração do ouro e das plantações de café, os puris da Zona da Mata foram expulsos de seu território e, com o passar do tempo, dados como extintos.  “Nos séculos XIX e XX, há um progressivo desaparecimento dos Puri dos documentos oficiais, aparentando um quadro de extinção”, relata o trio Puri no artigo. Porém, como os próprios pesquisadores percebem a partir do trabalho de investigação, outros historiadores coletaram relatos em aldeias e assentamentos onde viviam indígenas puris, o que faz com que extinção imposta ao povo Puri trata-se de uma tentativa do estado de invisibilisar a identidade Puri, com o intuito de expropriar as terras, a partir do não reconhecimento e da supressão dos documentos que comprovam a presença do povo Puri. 

É justamente por esse reconhecimento que o Retomada Puri se movimenta ativamente na região. Helenice Puri, 47, estudante de educação do campo na Universidade Federal de Viçosa (UFV) e liderança do grupo, destaca que o Retomada Puri tem agido em várias frentes, na busca por direitos dos povos indígenas, como direito ao território, à saúde e à educação. 

“Atualmente estamos lutando para nos inserir no cadastro do SUS como indígenas, queremos ser cadastrados como indígenas. Outra luta é para garantir bolsas permanentes nas universidades. Realizamos pedidos na UFV, UFJF E UFMG. Conseguimos na UFJF e na UFV. Entramos com pedidos de sete bolsas na UFV mas só duas foram contempladas, mas seguimos na luta para garantir esses direitos”, conta Helenice. 

O grupo também mobilizou ações para inserir os puris no contexto prioritário de vacinação contra a Covid-19. “O pedido foi para o Ministério Público mas infelizmente a aprovação não chegou a tempo”, lamenta a liderança.

Recentemente o grupo foi reconhecido pela Fundação Nacional do Índio (Funai). “Fomos reconhecidos como indígenas no contexto urbano. Entramos com várias declarações. Sou uma das lideranças que representam o povo Puri Uxo Txori, inclusive participo e assino o reconhecimento de outras pessoas como puris, fortalecendo esse resgate, essa retomada”, ressalta Helenice. 

Apesar do reconhecimento pela Funai, Helenice aponta que há a dificuldade em reconhecimento da identidade pelo governo. Uma das justificativas apontadas por ela para o não reconhecimento é afirmar que os puris na Zona da Mata não tem aldeias. “Como teremos território se fomos expulsos pelos invasores?”, questiona a liderança. 

O principal motivo para a recusa por parte do estado, de acordo com Helenice, é a obrigatoriedade em investimento em políticas públicas a partir do reconhecimento. “Com o reconhecimento, nós garantimos uma série de direitos. Para não lidar com isso, o estado prefere nos qualificar enquanto pardos. É melhor para eles quanto menos gente se reconhecer como indígena”, pontua. 

“Sou Helenice Puri, criada pela minha avó Juraci, dentro da cultura Puri. Tenho minhas filhas Helena e Heloísa. Nós não estamos extintos. Nós existimos!”, conclui.

Helenice Puri

 

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