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O amor é o segredo de tudo? Mães que estendem as virtudes da maternidade para além de seus lares

Alexsandra, Tida e Sandra são mulheres, mães e ativas em trabalhos sociais onde o carinho e o afeto são imprescindíveis

08/05/2022 às 09h46 Atualizada em 08/05/2022 às 10h17
Por: Davi Carlos Acácio
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Foto: Arquivo pessoal de Alexsandra Caldeira, Maria Aparecida Ribeiro e Sandra Lúcia Pereira
Foto: Arquivo pessoal de Alexsandra Caldeira, Maria Aparecida Ribeiro e Sandra Lúcia Pereira

Ternura! Virtude que exala no olhar, na fala e na presença de Alexsandra Caldeira, 42, Maria Aparecida Ribeiro, 51, e Sandra Lúcia Pereira, 49, ao falarem sobre maternidade. Três mulheres que, além de cumprirem com maestria o papel de mãe dentro de seus próprios lares, estendem os afetos maternos para com aqueles que lidam e ajudam em seus trabalhos, função que ultrapassa o profissional e se torna missão.

Por se tratarem de profissionais que dedicam boa parte de seu tempo a trabalhos sociais, as três enfatizam o cuidado, o carinho e o afeto com o outro. É de se admirar a forma como fazem. Elas não se atêm ao compendio vulgar de que o trabalho social, contando ou não com doações, deve oferecer ao beneficiário “qualquer coisa”, pelo contrário, fazem o possível para garantir que eles tenham acesso à materiais de qualidade. Não fazem distinção. E, no cotidiano das relações com os assistidos, buscam passar conselhos e oferecer a mão, o ombro, o afeto. Coisa de mãe. 

Alexsandra é assistente social no Lactário Anália Franco – instituição que tem como principal missão oferecer leite para crianças de 0 à 6 anos na cidade de Ubá -, além de trabalhar no Hospital Santa Isabel. Sua jornada profissional começa às 7 da manhã e só termina por volta das 19 horas. Mas a empreitada de mãe começa bem antes e, como de praxe, termina bem depois, nas funções mais corriqueiras e que costumam passar batidas no dia-a-dia, como acordar os filhos para escola, e, já à noite, acompanhar os trabalhos escolares e preparar o jantar. Alexsandra é mãe de dois filhos, Wemerson, o mais velho e o caçula Henrique. 

Mãe solo – assim como outras 11,6 milhões de mulheres brasileiras, segundo dados de 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) - a assistente social conta que sempre se virou, mas ressalta que contou com a ajuda de muitas pessoas na criação dos filhos. “Minha mãe me ajudou muito, também contava com vizinhas que quando dava olhavam, buscavam na escola”. Um retrato afetuoso, de abertura, muito comum em parte da cultura brasileira. O cuidado que passa por uma gama de mulheres, popularmente chamadas de “tias” pelas crianças – desde as tias com laços sanguíneos até as vizinhas, amigas da mãe, que participam do processo de educação da criança auxiliando em alguma tarefa. 

Ao comentar sobre o Lactário Anália Franco, Alexsandra diz “aqui é uma parte de mim mesma”. No contato com muitas mães em situação de vulnerabilidade financeira, a assistente social conta que muitas vezes acompanha as crianças nas fases de: gestação, do nascimento e da primeira infância. “Eu sei para qual criança vai servir determinada roupinha que a gente recebe aqui e para os irmãos que estão em casa e que eu tenho contato também. Então eu sei que essa roupinha vai servir, que ele gosta desse tipo de roupa, que ele gosta desse brinquedo, já outro vai gostar de outro. Eu sei o que eles gostam de comer, porque a gente tem o trabalho de cesta de legumes aqui também, são projetos que a instituição desenvolveu e recebeu recursos para desenvolver, então eu sei que um come banana e outro come maçã”, descreve com detalhes para exemplificar os laços.

O trabalho de carinho com os pequenos também passa pelas mamães, que são sempre aconselhadas por Alexsandra, que usa sua história para motivar as demais. “Fui mãe aos 16 anos do meu primeiro filho, totalmente sem norte. Daí voltei a estudar. Fiz o ensino médio com ele e a faculdade de pedagogia também. Muitas vezes não tinha com quem deixar e o levava comigo. Se eu voltei a estudar naquele momento foi pensando no meu filho, em dar uma vida melhor para ele”.

Apesar da profissionalidade mantida no trabalho, é difícil que os vínculos afetivos não desabrochem. Assim, Alexsandra conta que já recebeu de convites de aniversários à pedidos para “ser madrinha”, conta. “As mamães criam uma gratidão enorme por nós e tentam retribuir dessas formas”. 

Aliás, receber convites das mais variadas ocasiões é um ponto em comum entre elas. Maria Aparecida Ribeiro, popularmente conhecida como Tida, já recebeu convite até para a cerimônia de formatura de um aluno no Exército. Tida é professora de capoeira e ensina a arte há mais de 30 anos. Em sua trajetória, já coordenou projetos exclusivos com mulheres, com crianças e também idosos. A professora ainda trabalha com crianças, mas também tem em ação o projeto Ginga na Escola, que busca levar a história e a prática da capoeira para os colégios da cidade, além do Entre Laços, uma iniciativa que convida os pais para participarem da capoeira junto aos filhos, utilizando a arte também como projeto de aproximação familiar. “A criança fica fazendo a capoeira, mas observando os pais ali, querendo a aprovação deles, com medo de errar; então se os pais estão interagindo nesse universo, isso fica mais natural, as crianças ficam mais à vontade”, explica.

Tida é mãe de uma filha, a Lavínia. Como mãe, a capoeirista diz ser carinhosa, exigente e preocupada, mas ressalta que respeita a individualidade da filha e que aprende muito com ela, “a Lavínia tem uma cabeça bem mais aberta que eu, aprendo muito com ela. Aprendo sobre questões feministas também. Isso é importante até mesmo trabalhando na capoeira, a gente vem de um ambiente machista, o machismo estrutural, que a gente naturalmente reproduz. A minha luta também é isso, da gente mostrar o empoderamento feminino, mostrar eu enquanto mulher e capoeirista”, conta. 

Como bem pondera Tida, “a capoeira é acolhedora, porque a capoeira já diz que ela é feminina, o nome capoeira já é feminino, é mãe! Então a capoeira não permite a exclusão”. É nesse contexto que a professora amplia os atributos maternais para com seus alunos: aconselhando e acolhendo todos, se desdobrando nos projetos sociais a fim de proporcionar uma experiência positiva e ampliar o legado de uma herança cultural brasileira.

“Nada é pequeno quando o amor é grande”

A frase estampa a placa que indica a localização da Associação Monsenhor Lincoln Ramos, mais conhecida como Pequeninos de Jesus. O lar é responsável por assistir dependes químicos e pessoas em situação de rua. 

À frente das atividades há mais de 11 anos está Sandra Lúcia Pereira, ou dona Sandra, mãe, tia, como costuma ser chamada pelos assistidos. Para ela, “aquela que consola, que leva uma mensagem da palavra de Deus para eles todos os dias. É possível, você é capaz, você é amado, você pode”, na tentativa de incentivar aqueles que passam pela casa. 

O trabalho é dificultoso, uma vez que Sandra é multifuncional dentro da instituição, vai de cozinheira para lavadeira, cuida do bazar da casa e dos assistidos. Além disso, como bem descreve, ao assumir o papel temporário de mãe, acarreta mais funções: “mãe é professora, é psicóloga, é de tudo um pouco”; ou seja, aquela que oferece a escuta, que ensina, que crê. Apesar dos percalços, trata o que faz como missão e o faz com amor pelo próximo. 

Mulher de muita fé, Sandra é católica. Canta e compõe canções que tocam os corações com a palavra de Deus e já gravou até um cd autoral. Elegante, ela faz questão de destacar a espiritualidade e a fé, fundamentais para encarar o dia-a-dia e transmitir possibilidades positivas e amenas para os frequentadores da Associação. 

Sandra conta que a casa já recebeu assistidos passageiros de várias regiões do Brasil e até mesmo imigrantes, que, em situação de dificuldades ao chegarem em Ubá foram indicados: “vai lá nos Pequeninos de Jesus”. Em outras situações, houve casos em que pessoas relataram não ir lá em busca de alimentação, mas de ouvir uma palavra de Sandra – que realmente tem muita habilidade com elas. “Com isso a gente se sente satisfeita, feliz, porque é ser humano, independentemente de qualquer situação. Uma coisa dentro da minha cristandade que eu aprendi é fazer o bem sem olhar a quem”, salienta.

Uma das maiores satisfações do trabalho, destaca Sandra, é quando os assistidos que são dependentes químicos começam a sessar com o uso de drogas e vão, passo a passo, retomando as diretrizes da vida. “É um trabalho de satisfação interior, porque todos nós merecemos e temos o direito da dignidade. Todos nós merecemos o melhor que a vida tem para dar”. 

Mas a facilidade com as palavras também age dentro da casa de Sandra. Mãe de três filhos, ela também já é avó. Com os filhos Felipe, Wagner e Fabrício, ela diz ser uma mamãe babona – mesmo os garotos já sendo adultos – “mãe é assim mesmo”, elenca. Mas, segundo ela, também é rígida e cobra quando precisa. Afinal, nada como “puxões de orelha” de mãe para os filhos retomarem os eixos. 

Os papos entre mãe e filhos fluem naturalmente, conta Sandra. Como lhe é característico, faz questão de orientar os rapazes, sempre olhando o presente e o futuro, “filho cresceu, mas para a gente é o amor que conta”. Coisas de mãe. 

Em síntese, mãe

Dádiva, dom, missão, afeto, perdão, renúncia, foram alguns adjetivos que emergiram nas conversas para qualificar o “ser mãe”. Mas, em síntese, o amor incondicional é o que mais se aproxima como sinônimo do “ser mãe”.

O Pastor Henrique Vieira, em Principia, recitou que “o amor é o segredo de tudo.” Talvez esse seja um bom ponto de partida para obtermos respostas sobre caminhos dificultosos, cheio de nuances, de mulheres que têm uma história e, ainda assim são acolhedoras, atenciosas, levando a sério a máxima de amar os filhos. É, realmente o amor parece ser o segredo de tudo. Coisa de mãe.   

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