A primeira praça São Januário

16/08/2019

 

  

Difícil falar daquilo que não conhecemos, mas é muito bom voltarmos no tempo pelas palavras perpetuadas nos livros dos autores ubaenses, de um tempo de saudades, retratos de uma praça esquecida em nossas memórias.

 

Segundo Newton Carneiro o terreno em frente a Igreja de São Januário de Ubá era um “extenso gramado inculto, cortado em diagonal, da esquina da Avenida Raul Soares em direção à Rua Peixoto Filho, por uma faixa de chão limpo, para trânsito de carros de bois e de carroças. Em outros sentidos, havia estreitos trilhos usados por pedestres e, quase ao centro, se levantava um chafariz, coisa extraordinária numa cidade sem água e apenas servida pelas minas”. (Crônicas Municipais-1992). 

 

À frente da igreja foi instalado um cruzeiro, feito de madeira, ostentando os símbolos da crucificação.  Em torno do Largo de São Januário existiam quatro lampiões a querosene, pois não existia energia elétrica. O prédio onde se encontra instalada a Prefeitura Municipal de Ubá, teve seu terreno adquirido em 1898, sendo demolida a casa existente no local e construído o Paço Municipal, que foi inaugurado em 02 de fevereiro de 1900.  

 

 

O extenso gramado foi palco das primeiras manifestações de futebol em nossa cidade, instalando os gols, um do lado da residência do Dr. Angelo Barleta e o outro do terreno do Dr. Fusaro. Ali, personalidades da nossa história bateram bola, se divertiram e eram considerados craques. Pessoas como: “Coronel Carlos Brandão, José Ziede, o promotor Arduino Bolivar, Tantão Ramos, Francisquinho Gonçalves, Olintinho Brandão, Antonio Amaro, Sollero e Dr. Rezende”. (Cronicas Municipais-1992).

 

 

 

Por iniciativa de Martinho Freire de Andrade, em 1913, o “gramado inculto” deu lugar ao primeiro jardim da cidade, que teve seu esboço feito pelo agrimensor francês Georges Auvray, criando canteiros e a alamedas. Também foi construído um coreto, próximo a sede do Paço Municipal. As despesas para a construção do jardim vieram grande parte das economias de Martinho Freire e de doações do comércio e de fazendeiros. Como forma de manter um controle do local foi construída uma cerca em volta do jardim, com arame liso e estacas de trilhos da estrada de ferro. O acesso ao local era feito por quatro portões, que foram fixados nos quatro cantos da praça. “A energia elétrica chegou a Ubá em 01.01.1913” (A Trajetória-Evandro Godinho-2011) e o primeiro Jardim São Januário, ganhou dois postes no centro e que tinham a sua iluminação em local elevado, em relação aos lampiões da época.

 

 

“Nós tínhamos um jardim muito bonito que tinha quatro cedros, um em cada canto da Praça. Altos, uma beleza. A gente já não conseguia mais abraçar os cedros. Naquele jardim havia os cedros e duas carreiras de oitis [...] Naquele Jardim foi que a gente brincou toda a vida. A gente saia do colégio e ficava no jardim, brincávamos no jardim, namorávamos no jardim, ficávamos ali vadiando”. (Sollero, 6/10/1997:2).

 

O Jardim São Januário, “alegre e bonito local, onde desfilavam as moças da época, num footing divertido e inocente, onde se fazia mão e contramão (as moças iam para a direita e os rapazes para a esquerda). Muito romance nasceu ali. Depois de muitos domingos, numa troca de olhares é que tinham início os namoros. Resta dizer que, naquele tempo, as moças só se mostravam aos domingos, depois de já terem ido à igreja. Grandes árvores circundavam a praça. Nos quatro cantos, imenso cedros centenários, num desperdício de galhas copados, abrigavam casais de namorados a passear lentamente, tranquilos, trocando juras de amor e se emocionando com um simples e casual toque de mãos. No meio da praça erguia-se o coreto para as retretas, que a enchiam toda com o som de seus dobrados.” (Mala Velha – Marília Crispi -1985).

 

 

 

“Soam, ainda, em meus ouvidos os dobrados festivos da Banda Santa Efigênia, as alvoradas sonoras e os concertos sinfônicos da Banda 22 de Maio, no Coreto da Praça São Januário”. (O Discurso que não foi dito – Euclides Pereira de Mendonça -2009). A praça criada por Martinho Freire de Andrade, foi totalmente reformada por Ozanam Coelho, durante a década de 1940, passando a ser chamada de Jardim Cristiano Roças.

 

 

 

por Miguel Batista - Texto originalmente publicado na Revista IN

 

 

 

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