Coluna Memória: Avenida Raul Soares

16/04/2020

 

O terreno doado por Antônio Januário Carneiro, para a fundação da cidade de Ubá, foi demarcado entre o morro da Caixa d´água (Rua do Divino) e o morro das Três Porteiras (local onde ficam as entradas do bairro Vila Casal e Palmeiras). Se visualizássemos, hoje, a doação compreendia uma faixa de terra localizada na margem direita do rio Ubá, que tinha como limites os terrenos situados onde hoje é a rua do Divino, rua Governador Valadares, rua Santa Cruz, rua Santo Antônio, até alcançar o morro das Três Porteiras.

 

As primeiras edificações, do povoado de São Januário de Ubá, ocorreram por volta de 1815, com  a construção de casas para abrigar os operários contratados por Antonio Januário Carneiro, vindos de Presidente Bernardes (Calambau) e Piranga (Guarapiranga),  onde hoje é a Rua Santa Cruz e que aqui se estabeleceram com o objetivo de construir a Capela de São Januário. A primeira rua da cidade  foi denominada como rua de Trás, por estar localizada atrás da Capela de São Januário.

 

Algum tempo depois surgiu a segunda rua, onde hoje é a avenida Raul Soares, com a denominação de rua Esquerda, pois a rua de Trás ficou conhecida como rua Direita. Mais tarde a rua da esquerda foi oficializada como rua Municipal e posteriormente como avenida Raul Soares.

 

Nela residiram grandes familias como os De Fillipo, os  Girardi, D’Amore, os Stoduto, os Crispi, os Marcatto, os Muzitano, os Magaton, os Gori, Os Balbi, os Farnetano, os Coelho, os Alvim, os Souza Lima e os Carneiro. Marilia Crispi retrata em seu livro “Mala Velha” a seguinte visão da rua:

 

“A avenida  Raul Soares – cenário de minha meninice – era a rua principal. Apesar de chamar-se avenida, era(e  é ainda) uma rua estreita, calçada naquele tempo – década dos 30 – de pés-de-moleque.

            Sempre observei que as cidades de antigamente desprezavam o espaço e se construíam por meio de ruas estreitas. Acho que o homem daquela época sentia necessidade de aproximação, de aconchego, por isso, de uma casa para outra, quase se podia dar as mãos.

Nas casas muito grandes, abriam-se fileiras de janelas, mostrando os corações acolhedores, formando uma só família. Casas de portas abertas, sem marcos de divisa, tão diferente de hoje, quando há a preocupação de se construir paredões altos, prendendo as moradias.”

 

 

 

Pela avenida passaram os trilhos do bonde, conduzido pelo sr. Realino,  de 1896 a 1922 e que fazia transporte de passageiros, da  entrada do bairro Santa Cruz, até a Praça Guido, pelo preço de um tostão. Assistiu passivamente a retirada dos trilhos, anunciando a chegada dos primeiros carros trazidos pelo Sr.Camilo dos Santos.

 

A avenida foi palco de muitas festividades da cidade, pois por ela passavam os desfiles de 07 de setembro, onde nossos colégios, de forma ímpar, faziam grandes apresentações.

 

 Por ela proferíamos nossa fé, nas procissões da Igreja São Januário, onde as famílias ornamentam a rua e as janelas de suas casas e com o passar do cortejo, podia se ouvir o som do piano de dona Clotilde Vieira, entoando louvores da Deus.

 

Por ela quantas não foram as vezes que seus pedestres foram embalados pelos acordes de Dona Chiquinha Dias Paes, dando aulas de piano e pelos historias vividas pelo Sr. Genaro Crispi.

 

Por ela passaram os melhores desfiles de carnaval de nossa cidade, orquestrados pelo prefeito folião, Irineu Gomes Filho.

 

Muitas histórias e personagens, que se perdem pelo tempo.

 

Os anos passaram, o progresso veio e com ele novos hábitos, novas necessidades que alteraram a forma da cidade e a rotina de seus habitantes.  As velhas casas deram lugar a prédios residenciais e comerciais. As famílias que se reuniam em torno do rádio para ouvirem notícias e novelas, hoje se reúnem menos, pois a informação pode ser adquirida de várias formas: pela televisão, pelos jornais e revistas e pela internet. Cada vez mais se conversa menos e se digita mais, pois os amigos mantém diálogos intermináveis, a centímetros de distância, sem falar uma palavra. Vizinhos moram em um mesmo prédio e nunca se falam ou se encontram, a não ser em reuniões e em brigas de condomínio. Somos hoje prisioneiros em nossas próprias casas, cercados por grades, arame farpado e alarmes. Será essa, hoje, a tão sonhada qualidade de vida que queremos? Onde erramos?

 

Quem sabe a solução está nas lições deixadas, pelo nosso livre-arbítrio, no PASSADO.

 

(fonte de pesquisa : Crônicas Municipais -1992, A Trajetória – Evandro Godinho-2011)

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