Ubá acordou diferente naquela madrugada de 24 de fevereiro. A enchente não levou apenas móveis, vitrines e carros. Levou tranquilidade, estabilidade e o senso de segurança de centenas de famílias. O centro da cidade foi tomado pela lama. Casas foram destruídas. Comércios perderam estoques inteiros. Trabalhadores viram anos de esforço serem arrastados pela água.
O cenário parecia ficção. Mas é a realidade que estamos vivendo.
Diante de uma tragédia dessa dimensão, algo se torna ainda mais evidente: a cidade precisa de liderança.
A sociedade fez, e continua fazendo, o que está ao seu alcance. Voluntários se mobilizaram, empresários ajudaram como puderam, vizinhos acolheram vizinhos. A união do povo ubaense é admirável! Mas a solidariedade não substitui gestão pública. A reconstrução estrutural de um município não se faz apenas com boa vontade, ela depende de estratégia, articulação política e capacidade administrativa.
Crises expõem lideranças. Existe uma diferença clara entre estar presente no cenário da tragédia e comandar a superação dela. A imagem no meio da lama pode transmitir proximidade. Mas proximidade não é sinônimo de direção.
O papel de um líder, especialmente em um desastre natural, não está na execução operacional da ponta. Está na coordenação do todo. Está na busca imediata por recursos estaduais e federais. Está na elaboração de um plano emergencial consistente. Está na articulação técnica para reconstrução do centro comercial. Está na criação de medidas preventivas para que a cidade não reviva esse pesadelo.
No empreendedorismo, há uma frase provocativa: “Se o piloto do avião estiver servindo o café no corredor, quem está pilotando?”
Em um município devastado, a pergunta é inevitável. Se quem deveria estar estruturando soluções está concentrado na exposição da execução, quem está garantindo que a cidade tenha um plano sólido de reconstrução? Quem está pensando na recuperação econômica do comércio central? Quem está buscando os recursos financeiros que a população sozinha não tem como suprir?
Crises não são palco. São teste de comando. A população não precisa apenas ver ação. Precisa entender qual é o plano. Precisa de comunicação clara, metas objetivas, prazos realistas e transparência sobre os próximos passos. Quando isso não acontece, o que se instala é a insegurança. E a insegurança mina a confiança no futuro do município.
O comércio está destruído. Famílias perderam tudo. A economia local foi diretamente atingida. A ajuda voluntária é essencial neste momento, mas a reestruturação real depende do poder público. É ele quem tem legitimidade e instrumentos legais para captar recursos, decretar medidas emergenciais, reorganizar o planejamento urbano e liderar a reconstrução econômica.
Liderança não é excesso de mídia própria. Liderança é a capacidade de organizar o caos com estratégia.
Ubá não precisa apenas de presença simbólica. Precisa de comando firme, planejamento técnico e visão de longo prazo. A lama vai secar. As ruas serão limpas. Mas a memória coletiva vai guardar quem assumiu o comando e quem apenas ocupou espaço no cenário do caos. Em momentos históricos, liderança não se anuncia, se prova.
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