Os temporais que atingiram a Zona da Mata mineira deixaram pelo menos 53 mortos, cerca de 3 mil pessoas desabrigadas e 400 desalojadas. Para especialistas ouvidos pela Agência Brasil, a tragédia é resultado da combinação entre fatores climáticos e falhas humanas, incluindo negligência em relação às mudanças climáticas e ao planejamento urbano.
O geógrafo Miguel Felippe, professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), afirma que eventos extremos estão diretamente ligados às mudanças climáticas. Segundo ele, a prevenção depende da adoção de políticas públicas ambientais, tema que, na avaliação do pesquisador, tem sido negligenciado.
Felippe destaca que as áreas de risco são conhecidas, mas ações de mitigação esbarram na falta de recursos. Ele cita que, em Minas Gerais, verbas destinadas ao enfrentamento de chuvas sofreram cortes entre 2023 e 2025. Levantamento com dados do Portal da Transparência aponta que os recursos para a Defesa Civil estadual caíram de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões no período. O governo estadual não comentou.
O professor também defende que o ordenamento urbano é essencial para reduzir vulnerabilidades. Segundo ele, o mercado imobiliário influencia a ocupação do solo, empurrando populações de baixa renda para áreas mais suscetíveis a desastres, como encostas e várzeas. Em Juiz de Fora, onde se concentra a maioria das vítimas, bairros como Morro do Imperador, Paineiras e Parque Burnier foram fortemente impactados.
De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Juiz de Fora recebeu, em um único dia, quase todo o volume de chuva esperado para fevereiro. A cidade, localizada em área montanhosa e com influência direta da umidade oceânica, é considerada suscetível a deslizamentos e inundações.
O coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden, Marcelo Seluchi, afirma que o aquecimento do Oceano Atlântico — com temperaturas até 3°C acima do normal na costa — contribui para o aumento da umidade e intensificação das chuvas. Segundo ele, o cenário é consequência do aquecimento global e do descumprimento de acordos internacionais.
Seluchi defende medidas de adaptação, como retirada preventiva de moradores em áreas sob alerta e controle da expansão urbana em regiões de risco. Ele cita o exemplo do Japão, onde a população é treinada para evacuação em casos de desastres.
No campo da engenharia, o professor Matheus Martins, da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta alternativas como a construção de pôlderes — áreas isoladas por muros com sistemas de bombeamento para controle de inundações — além da ampliação de áreas verdes e da permeabilidade do solo para reduzir o escoamento superficial.
Segundo o Ministério das Cidades, foram aprovados R$ 30,1 milhões para contenção de encostas em Juiz de Fora entre 2024 e 2025, mas apenas R$ 1,2 milhão foi liberado até o momento. Há ainda previsão de R$ 356 milhões para obras de drenagem urbana no município, dentro do projeto de macrodrenagem Juiz de Fora + 100, que contempla bairros como Santa Luzia, Industrial, Mariano Procópio e Democrata.
Especialistas avaliam que, diante do avanço dos eventos climáticos extremos, o desafio é tornar as cidades mais resilientes e preparadas para conviver com fenômenos cada vez mais frequentes e intensos.
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